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“Nem o Pelé consegue desviar essa raiva”, analisa historiador T.J. Clark na Flip

“Nem o Pelé consegue desviar essa raiva”, analisa historiador T.J. Clark na Flip

Aline Viana Vladimir Satafle, T.J. Clark e Tales Ab’SaberA mesa que reuniu o historiador britânico T. J. Clark, o psicanalista Tales Ab’Saber e o filósofo Vladimir Satafle fizeram jus ao nome, “Da arquibancada à passeada, espetáculo e utopia”, lotando o tenda dos autores na noite de sábado (6), na Festa Literária Internacional de Paraty, e provocando reações entusiasmadas do público.

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Ao abrir a discussão sobre como a Copa das Confederações se tornou o alvo de manifestações em diversos pontos do País, Clark avaliou: “O mundo está fascinado com a visão do Brasil se voltando contra o culto do futebol. A igreja do futebol, o estádio, é que está sendo contestada. Algo está acontecendo que nem o Pelé consegue desviar essa raiva”.

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Os momentos mais apreciados pela audiência foram aqueles protagonizados por Satafle, o segundo a falar na mesa. “O maior saldo de todo esse processo é tirar a política brasileira dos bastidores e recoloca-la (em cena) a partir das demandas populares”, disse.

Quanto à crítica recorrente às passeatas por conduzir diversas bandeiras, entre elas a luta contra a corrupção, Satafle reagiu: “De onde veio essa ideia de que a luta contra a corrupção é conservadora? É claro que há uma visão de que a luta contra a corrupção se volta (por parte dos políticos no poder) contra os seus inimigos ou antigos amigos. É preciso cobrar uma luta geral e irrestrita à corrupção. O que as pessoas querem é que o último mensaleiro petista seja enforcado nas tripas do último mensaleiro tucano. É a pauta e não há nada de conservador nela. Ela é transformadora”.

O filósofo defendeu que apenas as propostas da constituinte, apresentada e abandonada por Dilma Rousseff, e uma profunda reforma tributária poderiam resolver as demandas das ruas. “A política está completamente permeada por interesses financeiros. Quanto se gasta para eleger um deputado? Fizemos uma pesquisa e é coisa de cinco ou seis milhões de reais. Quando se vê a renda dos deputados, 130 deles são milionários. Isso não pode ser reformado, tem que ser refundado”, defendeu.

Ab’Saber chamou a atenção para o desenvolvimento do Movimento Passe Livre, que levou uma “massa esclarecida, iluminista” a se manifestar. “Eles tiveram um diagnóstico sobre onde a máquina falsificada da nossa democracia falhava. É um trabalho político tradicional, ou seja, uma leitura das contradições da sociedade de classe”, avaliou.

O psicanalista foi aplaudido ao analisar que a escalada do movimento se fez em duas fases: na primeira ao conquistar o apoio social e, na segunda, ao expor a ação da polícia. “A vitória precoce desses meninos sobre a polícia ‘parafacista’ de São Paulo, apoiada sobre forças conservadoras que agiram sobre a democracia brasileira”, descreveu Ab’Saber, sendo interrompido por aplausos. “Com três dias de manifestações, eles venceram o déficit de reclamação contra a polícia brasileira. A polícia brasileira tem que começar a agir dentro da lei, o que ela não faz desde 1964”, afirmou.

Clark apontou a dificuldade da esquerda em questionar e propor alternativas ao modelo socioeconômico vigente. O historiador observou que uma demanda pontual – abaixar o valor da tarifa, no caso do movimento passe livre, ou questionar os gastos com a Copa do Mundo – é mais eficaz em mobilizar as pessoas hoje.

“A demanda (sobre a tarifa) será ferozmente combatida pelo capitalismo e seus poderes porque questiona todo o modelo de vida social ao começarmos a conceber a cidade como um modelo composto pelos indivíduos e pela coletividade e não como um funil onde os blocos econômicos são manipulados e manipulam. É uma demanda radical nesse sentido e será combatida”, declarou.

“Ninguém teria previsto que 2013 seria essa bola de neve de desafios contra a ordem política”, observou Clark sobre as manifestações populares em diversos países. Após citar o caso do partido político italiano criado em 2009 pelo comediante Beppe Grilo e que se tornou o terceiro maior daquele país com base em um discurso antipolíticos, o historiador encerrou a mesa com a seguinte reflexão: “Eu me solidarizo com essa retórica, mas não sei se vou agradar a todos quando digo que é perigoso também. O perigo é uma fantasia de fuga do problema da organização política para a realização da vontade geral, por meio de novas técnicas. Isso me preocupa porque a vontade geral e a crença na vontade geral foi o que levou ao período do terror após a Revolução Francesa”.

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