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‘Torquato escreveu com a morte a sua própria obra’, diz primo do poeta

‘Torquato escreveu com a morte a sua própria obra’, diz primo do poeta

George Mendes é primo e curado da obra de Torquato Neto (Foto: Pedro Santiago/G1)George Mendes é primo e curado da obra de
Torquato Neto (Foto: Pedro Santiago/G1)

O publicitário George Mendes é o principal responsável pelo lançamento de dois livros com poemas inéditos do poeta piauiense Torquato Neto lançados em novembro. Primo do artista, Mendes é curador de acervo que ficou 38 anos sob responsabilidade de Ana Duarte, viúva de Torquato. Em 2010 o material chegou à Teresina quando passou a ser organizado e catalogado.


Em entrevista ao G1 PI, George Mendes fala do objetivo ao lançar dois volumes de textos inéditos de Torquato, explica a relação do poeta com Teresina e desfaz a imagem soturna do artista.


G1 – Aonde estava o acervo do Torquato Neto e como ele chegou à Teresina?
Torquato foi um artista que viveu muito pouco tempo, viveu apenas 28 anos e construiu sua obra conhecida ou longo de 10 anos. Tudo muito pouco e fugaz. Em 2010, a Ana Maria Silva de Araújo Duarte, viúva de Torquato, anunciou o desejo de remeter para Teresina o acervo que ainda existia sobre o Torquato no Rio de Janeiro. Durante 38 anos a Ana aguardou esse material com muito zelo, critério e cuidado. Em 2010 ela me disse que confiaria mandar esse material para Teresina se eu aceitasse recebê-lo.


Eu disse que claro que aceitaria tudo, mas que não poderia trabalhar nele imediatamente porque estava preso a outros compromissos, mas que, logo que pudesse, daria início a organização, estudo e catalogação desse acervo.


São poemas, letras de música, roteiros, os originais dos poemas mais famosos, discos, livros, pôsteres, postais e uma série de coisas que estavam sob a guarda da Ana e de seu filho Tiago Nunes.


Ao receber o material e enfrentar a poeira daqueles velhos escritos, comecei a descobrir que aquilo era algo bem maior do que a gente pressupunha. As músicas conhecidas do Torquato editadas e gravadas são algo em torno de 34 canções. Ao fim da catalogação, nós descobrimos quase 100 títulos daquilo que ele indicava que seriam canções. Então, a obra do Torquato, do ponto de vista musical, pode ser quase que triplicada.

Alguns originais de poesias e canções do Poeta Torquato Neto (Foto: UPJ Produções)Alguns originais de poesias e canções do poeta Torquato Neto (Foto: UPJ Produções)

G1 – Torquato deixou um livro pronto e organizado que é “O Fato e a Coisa”, mas como foi edição do Juvenílias?
Vimos que havia muito poemas da juventude do Torquato que também estavam lá. Resolvemos lançar um livro com esses textos e dar o nome de Juvenílias. São poemas que foram escritos em Teresina, Salvador e no início de sua chegada ao Rio de Janeiro.


Fizemos esse trabalho que vai dar muito o que falar. Será amado e também detestado, pois tudo que se refere ao Torquato Neto termina em uma boa polêmica.

Eu nunca considerei que a relação de Torquato com Teresina fosse conturbada”

G1 – Torquato ficou conhecido pela Tropicália. Na década de 1980 ele é lembrado por ser o compositor da canção Go Back, grande sucesso dos Titãs. O que os livros lançados devem representar para a nova geração?
Eu acho que eles irão saciar uma curiosidade que sempre houve em relação ao Torquato. Os porquês da vida e obra de Torquato, eu e nem ninguém conseguiremos responder nunca. Mas a sentido de como foi o Torquato Neto vai ganhar novos ângulos, principalmente para os mais jovens.


Não tenho duvidas de que a parte mais contundente do Torquato já é conhecida, aquilo que já foi publicado nos livros póstumos feitos sobre ele. Entretanto, agora o esforço é local, da sua terra Teresina para o Brasil. Vamos fazer alguma coisa que também seja significativo para o país em relação ao Torquato.


G1 – Dizem que Torquato Neto tinha uma relação conturbada com sua Terra Natal, que a chamava de ‘Tristeresina’. O que o senhor pode dizer sobre essa relação?
Torquato pode ser visto de diversos ângulos. Eu, por exemplo, que convivi com ele ainda menino, tenho a lembrança de um homem doce, sereno. Não conheci a voz elevada do Torquato. Lembro da de sua risada larga, de um sujeito com o trato carinhoso e delicado para com seus amigos e familiares em Teresina. Eu nunca considerei que a relação dele com a cidade fosse conturbada. O que nunca deixei de compreender que ele não era só de Teresina, Torquato era do mundo.


Ele saiu de sua cidade natal, passou por Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Londres, Paris, mas nunca deixou de vir a Teresina.


Era filho único e o segundo de 44 netos da família Araújo. Os laços familiares, os amigos de infância e as histórias até a adolescência, foram construídos aqui em Teresina. Essas relações não acabam porque ele diz que vai embora. Sua raiz era aqui e ele nunca abandonou isso.


G1 – Esse lado doce que o senhor falou sobre Torquato é o oposto de sua imagem mais conhecida, aquela do vampiro.
O homem e o artista, essa é antítese. Duas pessoas diferentes. O Torquato foi um cara que escreveu com a morte a sua própria obra. Ele foi um homem sereno, tranquilo e doce. Ao mesmo tempo que era o radical que adorava polemizar, que daria um boi para não entrar em uma briga e uma boiada para não sair.


Um cara que defendia suas ideias com unhas e dentes e que achava que arte só fazia sentido se vivida intensa e radicalmente. O Torquato rebelde, inconformado, que nunca se acomodou, que tanto fazia barulho com tão pouco, era o mesmo filho único da tia Saló, do tio Eli (Heli da Rocha Nunes e Maria Salomé Nunes, pais do poeta). Era uma homem muito dado com a família inteira e com seus amigos. Uma pessoa que não se importava de chegar de uma farra e fazer a tradução de um texto em inglês para um garoto, eu, que iria fazer provas às sete da manhã.

Não conheci a voz elevada do Torquato. Lembro da risada larga dele, de um sujeito com o trato carinhoso ”

Ele morria de rir daquela situação esquisita, mas estava lá traduzindo o texto às gargalhadas como se nada de extraordinário estivesse acontecendo.


G1 – Existe um projeto maior para a divulgação do acervo de Torquato Neto?
Sim. Todas essas iniciativas que estamos realizando tem zero de financiamento público. Eu, junto com a equipe, inscrevemos um projeto maior no Ministério da Cultura (Minc), reunindo as diversas intenções em oito produtos. Tudo isso na esperança que o nome dele recebe a atenção que merece.


O projeto inscrito prevê o lançamento nacional dos dois livros, dois CDs de canções inéditas com parcerias de músicos locais e antigos companheiros do tempo de Tropicália como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jards Macalé; um documentário, a revista Torquatália, a estruturação do acervo e uso dele de uma forma mais aberta e a renovação do site para que esse material possa ser acessado de qualquer parte do mundo.


Estamos esperando a resposta e acho que, em março ou abril, teremos uma resposta.
Quero tratar o acervo do Torquato muito bem, mas não quero guardá-lo para mim não. Eu tenho os originais, mas quero dividi-los com o mundo inteiro.


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