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No Doubt lança disco e guitarrista diz: ‘Hoje, os filhos vêm antes do rock’

No Doubt lança disco e guitarrista diz: ‘Hoje, os filhos vêm antes do rock’

A banda No Doubt em dezembro (Foto: Reuters)A banda No Doubt (Foto: Reuters)

Para o ouvinte, a principal variação entre o No Doubt que agora lança o álbum “Push and shove” e o No Doubt que fez sucesso há quase duas décadas está na sonoridade: o ska melódico de “Tragic kingdom” (1995), que vendeu mais de 16 milhões de cópias, passou a dividir espaço com influências de música eletrônica contemporânea.

Mas há outra mudança fundamental, esta de ordem pessoal, entre as “duas” versões do grupo. Quem explica é o guitarrista Tom Dumont, em entrevista ao G1 por telefone. “A maior diferença na nossa vida é, provavelmente, o fato de termos nos tornado pais”, comenta entre risos. “Ter filhos não é algo muito rock’n’roll, mas as crianças realmente vêm em primeiro lugar agora. Hoje, os filhos vêm antes do rock.”

Pelas contas do músico, os quatro integrantes do No Doubt têm, somados, oito filhos. Dois são de Gwen Stefani, a vocalista, casada com Gavin Rossdale, do Bush. De acordo com Dumont, a atual vida na estrada é mais difícil para Gwen do que para seus parceiros. Ele fala ainda que as letras seguem sendo escritas pela cantora. Em “Push and shove”, contudo, Tony Kanal (baixista) passou a ajudar na composição dos versos.

“Apesar da história dos dois, eles realmente têm uma relação de trabalho incrível, com muito respeito”, explica Dumont. Gwen e Kanal namoraram por sete anos, antes da fama. O término da relação é tema do principal hit da banda, “Don’t speak”. O guitarrista conta que a recepção de “Don’t speak” fez a gravadora propor ao quarteto que gravasse versões em outras línguas, como espanhol e português. Temendo soar pouco autêntico, o No Doubt recusou. Leia, a seguir, os principais trechos da conversa.

G1 – Gwen disse que “Push and shove” é o disco da vida de vocês. Concorda?
Tom Dumont –
Bem, eu acho que, sempre que fazemos um disco, achamos que é o trabalho das nossas vidas (risos). O engraçado, neste disco, é que, quando terminamos de gravar, mixar e masterizar, fiquei tão de saco cheio, que não conseguia ouvi-lo mais. Fiquei sem ouvir por cerca de um mês. Mas, depois desse período, tive de fazer uma viagem de uma hora de carro, até Los Angeles, e pensei comigo mesmo: “Esta é minha chance, vou ouvir de novo, de cabeça aberta e como se fosse a primeira vez”. Então escutei, do princípio ao fim, e me senti realmente bem, orgulhoso. Acho que fizemos um grande trabalho.

G1 – Na sua opinião, qual a principal diferença entre aquele No Doubt de “Tragic kingdom” e o No Doubt de “Push and shove”?
Tom Dumont –
Uau! É o seguinte: nós somos as mesmas pessoas, há uma vida inteira nesses 15 anos. A maior diferença na nossa vida é, provavelmente, o fato de termos nos tornado pais. Ter filhos não é algo muito rock’n’roll (risos), mas as crianças realmente vêm em primeiro lugar agora. Hoje os filhos vêm antes do rock. A música e o No Doubt têm sido realmente uma válvula de escape. Temos duas vidas, sabe?

G1 – Quantos filhos vocês têm ao todo?
Tom Dumont –
Acho que oito. É uma gangue (risos). As crianças são demais, todos estão sempre brincando juntos, são amigos. Mas a parte mais difícil é com a Gwen, porque ela é a mãe. Ela tem dois garotinhos, que vão com ela para todo canto, porque precisam da mãe – e ela tem de ser uma mãe, em primeiro lugar. Essa é a coisa mais complicada para ela.

Tom Dumont, guitarrista do No Doubt, e a cantora do grupo, Gwen Stefani, durante apresentação no American Music Awards, em 18/11/12 (Foto: Matt Sayles/Invision/AP)Tom Dumont, guitarrista do No Doubt, e a cantora do grupo, Gwen Stefani, durante apresentação no American Music Awards em 18 de novembro de 2012 (Foto: Matt Sayles/Invision/AP)

G1 – Muitos dos fãs do No Doubt andaram elogiando o fato de a banda ter mudado pouco ao longo dos anos e boa forma de Gwen, que não parece envelhecer. O que acha disso?
Tom Dumont –
Isso é algo engraçado sobre nós. Olhando para trás, para nossa história, vejo que isso sempre foi verdade. Nós temos esse terrível medo de nos repetir. Na época do “Tragic kingdom”, tivemos aquele sucesso incrível – com “Don’t speak”, “Just a girl” e outros singles. Acho que nós sempre mudamos. A coisa difícil disso tudo é que alguns fãs querem que a banda ainda soe como soava 15 anos atrás – e ficam desapontados. Por outro lado, sentimos que devemos seguir adiante, não queremos ficar estagnados.

Apesar da história dos dois [Gwen Stefani e Tony Kanal], eles realmente têm uma relação de trabalho incrível, com muito respeito. É ótimo vê-los assim.”Tom Dumont, guitarrista do No Doubt

G1 – O modo como vocês trabalham juntos mudou neste disco novo? A Gwen continua escrevendo as letras?
Tom Dumont –
Sim. Este disco foi um pouquinho diferente. No passado, a maior parte ficava com a Gwen, e neste disco ela trabalhou nas letras com Tony. Foi uma novidade. A verdade é que ainda é a Gwen escrevendo músicas sobre a vida dela, sobre as suas emoções, sentimentos, observações. E Tony, em vez de trazer ideias para as músicas, ajudou mais com… [Após pequena pausa] Com a gramática, com descrições. Mas ainda é a vida de Gwen – ela não está cantando sobre a vida do Tony, sabe? (Risos) Apesar da história dos dois, eles realmente têm uma relação de trabalho incrível, com muito respeito. É ótimo vê-los assim.

G1 – A letra de “Don’t speak” é bastante pessoal, mas ela se tornou um hit em lugares onde as pessoas não falam inglês. Imagina por quê?
Tom Dumont –
(Risos) O modo como isso funciona sempre me intrigou. Essa é uma pergunta que você pode responder melhor do que eu. Você, que fala português, quando escuta uma música em inglês, traduz a letra ou apenas entende a emoção das melodias?

G1 – “Don’t speak” não tem uma letra difícil, acho que muita gente conseguia entender pelo menos essa parte. O resto talvez fosse mais difícil…
Tom Dumont –
O engraçado é que, “Don’t speak” foi se tornando um grande hit ao redor do mundo e a gravadora chegou a propor: “Se vocês pudessem regravar em línguas diferentes – como espanhol, português –, quem sabe vocês não vendem mais discos…”. Não seria autêntico fingir que cantávamos em línguas diferentes. Não foi porque não respeitávamos outros países, foi porque não queríamos nos esforçar para ser algo que não éramos. No começo da banda, especialmente na época do “Tragic kingdom” e no final dos anos 1990, realmente curtíamos viajar para tantos lugar quanto pudéssemos. Ficávamos empolgados pelo fato de as pessoas conseguirem cantar nossas letras.

Gwen Stefani, cantora do No Doubt, durante apresentação da banda no MTV Europe Music Awards, em 11 de novembro de 2012 (Foto: Daniel Roland/AFP)Gwen Stefani, cantora do No Doubt, durante apresentação da banda no MTV Europe Music Awards, em 11 de novembro de 2012 (Foto: Daniel Roland/AFP)

G1 – No disco novo, vocês tentaram modernizar o som do No Doubt?
Tom Dumont –
Sim. Nós nos inspiramos na música do passado e também na música que está acontecendo hoje. “Push and shove” [a faixa-título] é uma música louca, na parte dos versos há uma batida de pista de dança, de algum modo tem um andamento meio house. Mas, ao mesmo tempo, soa muito como um ska antigo dos anos 1960. E depois vem o refrão maluco. Nós começamos a ouvir umas músicas para nos inspirar e percebemos que havia algo próximo ao dubstep ali. Só um pouquinho. Mas não é que quiséssemos nos tornar dubstep ou algo do tipo. Acho que é divertido tirar elementos de coisas que encontramos por aí. Não sei como as pessoas vão reagir a isso, mas nós adoramos.

Nós não queremos voltar ao que éramos antes, a tecnologia está sempre progredindo. Mas seja hoje, nos anos 1990 ou mais antigamente, a música tem de ser boa por si mesma, para fazer alguém querer ouvi-la”Tom Dumont, guitarrista do No Doubt

G1 – O No Doubt tocou recentemente num evento para fãs muito novos, o Teen Choice Awards. Na sua opinião, qual a diferença entre os adolescentes de hoje e os dos anos 1990? Naquela época, compravam-se CDs.
Tom Dumont –
A cultura mudou – e mudou completamente o jeito como as pessoas ouvem música. É verdade. Quando éramos jovens, era caro comprar CDs. [Quando comprava] eu ouvia cada uma das faixas umas cem vezes, lia todas as letras do encarte. Hoje em dia, parece que ninguém compra. As pessoas ouvem no YouTube, na internet. O fato é que nós não queremos voltar ao que éramos antes, a tecnologia está sempre progredindo. Mas seja hoje, nos anos 1990 ou mais antigamente, a música tem de ser boa por si mesma, para fazer alguém querer ouvi-la.

G1 – Numa entrevista, você disse que praticava guitarra durante longas horas, e que agora só apanha o instrumento só quando tem inspiração. A música teria se tornado um prazer, e não mais uma obrigação. Quando percebeu isso?
Tom Dumont –
Quando era mais novo, cresci ouvindo rock pesado – heavy metal e guitar music…

G1 – Que artistas?
Tom Dumont –
Bandas como Iron Maiden, Judas Priest, Rush, hard rock, enfim. Kiss, claro. Então, quando era adolescente, eu tinha muito interesse nas habilidades técnicas que a guitarra exigia, ou em como poderia tocar tão rápido quanto Yngwie Malmsteen. Eu tentei com muito empenho tocar desse jeito, lia revistas sobre guitarra, praticava oito horas por dia. Mas, na época em que entrei no No Doubt, quando tinha uns 20 anos, percebi que jamais seria como Yngwie Malmsteen, ou tão bom naquele nível. Percebi que música envolve muito mais do que aquilo. Envolve emoções, histórias que são contadas. Passei a me concentrar nas melodias – eu era bom o suficiente como guitarrista para fazer o que queria. Foi uma mudança de foco. O No Doubt me ajudou a chegar a esse ponto.

G1 – Vocês pretendem vir ao Brasil? A única visita foi há 15 anos.
Tom Dumont –
Na verdade, tenho um grande amigo que é brasileiro. Ele agora mora em São Paulo, por causa do trabalho, mas morou em Long Beach durante 15 anos. Nós estávamos falando de eu visitá-lo nos Jogos Olímpicos [de 2016], mas espero voltar e tocar com a banda antes disso (risos).

G1 – Seus fãs também, acredito. Seu amigo mostrou a você alguma coisa de música brasileira?
Tom Dumont –
Ele gosta das mesmas coisas eu, hard rock, AC/DC, Iron Maiden, sabe?

G1 – Quais as suas lembranças daquela passagem pelo Brasil nos anos 1990?
Tom Dumont –
Nós realmente nos divertimos muito. Eu tenho uma lembrança muito específica. No Rio nós ficamos perto da praia, me lembro de nadar no mar no meio da noite, e tinha aqueles bares perto da praia, onde dava para comprar cerveja, e voltar para o mar, depois comprar outra cerveja – e assim por diante.

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