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América Latina teve ‘mudanças modestas’ com esquerda no poder

América Latina teve ‘mudanças modestas’ com esquerda no poder

DE BBCBRASIL

Especialistas do renomado Instituto de Estudos Políticos (IEP) de Paris, que acabam de publicar o livro A Esquerda na América Latina, 1998-2012 – Primeiro Balanço, afirmam que a América Latina teve apenas reformas modestas com a esquerda no poder.

O livro, escrito por mais de uma dezena de autores, analisa as ações dos diferentes governos da região a partir da primeira eleição do presidente Hugo Chávez, da Venezuela.

Esta eleição marca, segundo os autores, “o início de uma impressionante série de 24 vitórias da esquerda em 13 países diferentes”.

Apenas o México, a Costa Rica, o Panamá e a Colômbia, e também Belize, República Dominicana, Suriname e a Guiana, não tiveram governos de esquerda no período analisado.

“Entre as grandes reformas realizadas na América Latina em pouco mais de uma década, constatamos que poucas podem ser atribuídas exclusivamente à esquerda”, disse à BBC Brasil o professor Olivier Dabène, coordenador da publicação e presidente do Observatório Político da América Latina e do Caribe do IEP.

No caso do Brasil, dizem os autores, o Partido do Trabalhadores (PT), que chegou ao poder com a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, acentuou e ampliou políticas econômicas e sociais que já haviam sido iniciadas no governo anterior, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Cardoso iniciou várias reformas e lutou contra a inflação, que é uma importante política social”, afirmou Dabène. “A estabilidade econômica tem um grande impacto social.”

Na opinião do coordenador do livro, a “ruptura” entre o governo anterior e o de Lula também “não é tão evidente” em outras áreas, como a educação.

“No Brasil, os atores de direita ou de esquerda não estão claramente identificados. O PT sempre foi um partido de esquerda antes de chegar ao poder, mas as gestões de Cardoso e Lula não foram tão diferentes”, afirmou Laurence Whitehead, professor da Universidade de Oxford.

“Cardoso iniciou programas de aumento da renda, no estilo do Bolsa Família, que foram depois ampliados no governo de Lula”, disse Whitehead.

“A pobreza está diminuindo em toda a América Latina e não apenas nos países com governos de esquerda”, acrescentou Dabène.

Para os autores do livro, muitos partidos de esquerda que chegaram ao poder na região renunciaram à ideia de reformar as políticas neoliberais dos anos 1990, que eles tanto haviam criticado.

A esquerda, em muitos países, incluindo o Brasil, também passou a privilegiar o controle das contas públicas e a impor medidas de rigor quando necessárias.

Mas apesar das políticas neoliberais dos anos 80 e 90 passarem a ser vistas como um fato consumado, os governos de esquerda da região “souberam reabilitar o papel político dos Estados na promoção do desenvolvimento e da luta contra a probreza”, avaliam os especialistas.

“A esquerda na América Latina não provocou uma ruptura brutal com o período neoliberal. Mas ela também não renunciou às suas ambições reformadoras”, afirma a publicação.

O livro também analisa se a esquerda poderia receber os “méritos” do forte crescimento econômico da América Latina na última década.

Para Dabène, o crescimento da região no período pode ser atribuído ao aumento das exportações, principalmente de matérias-primas, provocado pela maior demanda de países como a China.

Segundo os autores, a reeleição de governos de esquerda na América Latina a partir de 2006 (caso de países como o Brasil, Argentina e Equador) correspondem a “votos de reconhecimento em um contexto econômico muito favorável”.

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